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Largar tudo e viajar: por que e como? Uma Meta-postagem

Mikonos, Grécia, 2016

As duas perguntas que mais ouço sāo por que eu larguei tudo e decidi ser blogueiro de viagem e como funciona. Bem, se você tem acompanhado nossos posts e está lendo este agora é porque, de alguma forma, há certa identificaçāo com o tema, nem que seja mera curiosidade. Resolvi, entāo, discorrer brevemente sobre o assunto, em uma meta postagem, como diriam os linguistas (meta= falar sobre ou estudar a si próprio).

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As principais indagações que me chegam quando comento que larguei tudo para viajar sāo: “por que?” (e esta é fácil de responder) e “como você faz isso?”

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Vamos tentar responder. Assim como para o “filósofo ser filósofo” é crucial e indispensável que ele tenha tido o chamado “Thauma filosófico” ( o “έκπληξη“), no qual tudo a sua volta passa a ser espantoso, maravilhoso e,sobretudo, lógico. A folha que cai no outono, a brisa no rosto, as perguntas do filho pequeno, o cachorro feliz ao lhe ver, enfim, tudo parece espantoso e merecedor de investigaçāo e observaçāo. Nada mais deixa de ter importância e, como já mencionei, tudo lhe parece muito lógico. A filosofia, como ciência essencialmente matemática, busca a lógica e a explicaçāo para tudo. Até mesmo para o que nāo podemos ver, como tāo bem discorreu Platāo em sua teoria do “mundo das ideias”. Talvez esta tenha sido a razāo de eu ter cursado filosofia na universidade antes de me decidir pela psicologia.

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Pois bem, o viajante passa pelo mesmo processo. Nada mais para ele parece ser naturalizado, usando uma terminologia da psicologia social. Tudo a sua volta merece explicaçāo e investigaçāo. No caso do viajante, porém, adiciona-se um toque de antropologia cultural (caso contrário, nāo haveria a necessidade imperativa de viajar), no qual a cultura passa a ser protagonista. Por exemplo, perguntas como “até que ponto a colonizaçāo de exploraçāo portuguesa realmente influencia a índole e os traços do povo brasileiro?” passam a ser a bússola para novos destinos. O espanto (Thauma) de perceber a sua volta os mesmos padrões se repetindo, aliados a um enorme interesse de conhecer mais sobre determinado tema, o impulsiona a conhecer outros lugares e faz com que o desejo de viajar passe a ser quase como que incontrolável.

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Tomando como exemplo um desses viajantes, ao partir pelo Brasil, em busca de respostas, ele passa a se interessar por aspectos que o turista dificilmente atentaria, como por exemplo, se espantar com um senhor já idoso sentado em uma cadeira de balanço ao lado da porta entreaberta de um casarāo que pela sua simples existência nos dá uma aula de história ao lermos o escrito marcado na parede, ao lado: Século XVII A.D.. O turista acharia interessante, talvez valesse uma foto ou uma selfie e seguiria seu caminho. O viajante se detém ali, observa a cena e começa a se perguntar até que ponto a história da casa influenciaria seu atual inquilino ou vice-versa. Ele vai até o senhor ali sentado (além de tirar a mesma fotografia do turista, claro. Já a selfie...enfim.) e puxa conversa, sentando na calçada ao lado do morador. Em pouco tempo, o viajante já descobriu que a família de Seu Juliano, ou “o Comendador”, como era conhecido, mora ali desde incontáveis geraçōes passadas e após algum tempo ali sentado, o viajante acaba por ser convidado para entrar e tomar um cafezinho para “entreter a prosa”. E nesta prosa, as perguntas que o levaram para a estrada aos poucos começam a ser respondidas.

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Este exemplo é real. Este viajante sou eu. E a casa está às margens do Velho Chico, no interior de Alagoas. Assim, foi desta forma que este viajante percebeu que nāo teria mais como voltar para sua cidade e repetir a mesma rotina todos os dias, pois as perguntas nāo seriam mais respondidas. O Thauma nāo seria satisfeito.

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Passemos à outra pergunta que sempre escuto, aquela do “como você faz isso?”. Uma das formas de responder a esta questāo é você acompanhar nossas postagens e divulgá-las. A partir daí, a dinâmica do nômade digital se completa. Ou seja, sem você, que nos lê agora, o viajante nāo existe, mas esta prosa nos levaria a terremos lacanianos e nāo é isso que queremos! Portanto, é necessário uma parceria e cumplicidade entre aquele que se espantou de tal forma que somente a observaçāo participante (a viagem) poderia trazer alguma resposta ao viajante, com aquele outro que nāo se espanta com a folha que cai no outono mas acha fascinante a ideia de que alguém se espante com isso e tem vontade de descobrir como é tal experiência. Contudo, ele nāo necessita da observaçāo participativa. A leitura e as conversar com quem viaja lhe sacia muitas dúvidas. Talvez ele tenha até mesmo planos de fazer o mesmo por alguns meses, ou durante um fim de semana prolongado ou quem sabe quando se aposentar.

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Talvez, ainda, ele queira que sua filha, ainda pequena, saiba que o mundo nāo é simplesmente ver uma folha caída no chāo em uma tarde de outono e pisar nela ao passar, mas , antes, se perguntar como ela foi parar ali. Mesmo que para isso, nāo seja necessário tornar-se botânica.

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Mas nāo é só isso. É primordial um outro parceiro, alguém em quem se possa confias sem reservas, alguém que você admire e sabe que é mais centrado e mais responsável que você. Alguém que possa que puxar a orelha e até bater na mesa e gritar com você, porque você se espanta tanto com as coisas que esquece das regras ortográficas ao postar seus textos ou resolve ir a um país sem passagem de volta e é deportado. Esta pessoa é fundameantal para o projeto existir. Ele é seu superego, se quisermos uma terminologia freudiana, é a pessoa que faz as coisas acontecerem. Normalmente ele é responsável pela parte técnica do website, da divulgaçāo e das diretrizes do projeto, tais como que destino escolher a partir da audiência que estamos tendo e que tipo de matéria produzir.

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No caso do Mondo Blu este profissional é o Luciano Boiteux que, apesar do nome chique, é uma pessoa maravilhosa e na qual eu confio para assuntos blogueiros e extra-blogueiros. Se o viajante nāo tem este parceiro, é bem provável que o projeto nāo aconteça.

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De forma resumida, estas são as respostas de por que alguém largaria tudo para viajar e como funciona o processo. Encerrando, convidamos-lhe a continuar viajando conosco e, quem sabe, a partir de hoje, procurar observar um pouco mais as folhas caindo ou a brisa que acaricia seu rosto.


Alberto Escosteguy

A vida de um Nômade Digital II : A Outra Face da Moeda

Se você leu o post anterior e tinha o sonho de ser um Digital Nomad, deve estar arrasado ou ao menos muito brabo comigo. Calma! Agora vamos continuar a narrativa de como ser nômade digital.

A parte que eu não te contei ainda é que tudo que escrevi no post anterior é verdade… até a segunda página.
Se você tem realmente o talento de criação por conta própria (até isso pode ser remediado) e adora (muito) viajar, os pesadelos que descrevi anteriormente são reais e, em maior ou menor grau, provavelmente alcançarão você… nos 2 ou 3 primeiros meses.
Depois… supresa ! Tudo começa a ganhar um colorido único e as coisas começam a fazer sentido.
Vamos lá?
Iniciaremos discorrendo sobre o que provalmente acontecerá no “dia seguinte” de cada um dos pontos que mencionei tão dramaticamente no post anterior.

1) Você perderá boa parte do seus amigos…que você descobrirá que, na verdade, jamais foram seus amigos. O termo AMIZADE ganhará para você uma conotação muito diferente, e muitas vezes, você irá acabar por ensinar a seus amigos o real valor de uma amizade.
Amigos passam a ser família, pessoas com as quais você pode contar, seja na sua própria cidade onde ambos moravam ou na China (literalmente). Você compreenderá que um real amigo não depende da geografia ou do tempo para estar a seu lado. Skype, WhatsApp, Facetime, ligações quase de graça para falar por 450 minutos (dos EUA, Canadá, Japão, Índia e Europa) para o celular de qualquer um no Brasil. E, o melhor de tudo: você viajará muito. Muito. Muito!
E como você escolherá sempre a mesma aliança aérea para voar (eu, por exemplo, só vôo de Star Alliance), talvez possa realmente até não ter ido ao aniversário daquela amiga. Mas agora a presenteia com uma passagem tirada com suas muitas milhas acumuladas (A Star Alliance permite que você tire passagens com suas milhas em nome de terceiros) para ela passar 2 semanas ou um mês (ou até mais se possível for) com você em Bali ou em uma praia na Jamaica! Que tal?
Concluindo, os “amigos” que te julgaram, nunca foram, na verdade, amigos. E você não está muito preocupado com eles, pois estará curtindo sua amiga na Jamaica.

2) A solidão será sua companheira fiel.
No princípio.
Aos poucos, você vai se adaptando ao estilo nômade de viver e descobrirá que existem muito mais pessoas assim no mundo do que você pensava. E, assim, seu próximo passo será se filiar a uma organizaçāo de nômades digitais (existe uma inclusive só de brasileiros!) e vocês se encontrarão pelo mundo. Que tal marcar uma reunião em Los Angeles e agendar um churrasco em Trancoso daqui a 2 meses?
Pense comigo: se você é engenheiro, provavelmente seu círculo será formado por outros engenheiros e afins… se você for médico, psicólogo, manicure etc. a mesma coisa. Então, se você for nômade digital, seu círculo será formado por outros nômades digitais. Eu sugiro o grupo https://www.youtubevilla.com e sua página no FB https://www.facebook.com/supernomadfriendsquad.
Ou, se não quiser, fique por dentro dos eventos exclusivamente organizados por e para digital nomads: https://www.flystein.com/digital-nomad-events-2017

3) Concordo que sua família vai levar algum tempo para entender seu modo de vida. E vāo sofrer.
No início.
Tal qual a filha que sai de casa ou o filho que se muda para outra cidade, você foi viajar.
E, convenhamos, se você tem uma filha(o), ela(e) vai sair de casa, casar, montar a família dela(e), ou
então vai continuar solteira(o) e imigrar para Miami. Nāo é muito diferente do nômade.
Com o tempo, tudo se ajeita. E aquela sua tia-avó que antes chorava ao telefone, hoje irá ao chá do clube com as amigas e vai falar cheia de orgulho: “meu sobrinho hoje me ligou de Berlim. Foi bom porque semana que vem ele estará na Namíbia e não sei como vai ser”.

4) Tudo é vivido intensamente e no dia de hoje. Verdade. Pode até bater insegurança no início, mas com o tempo, você se engajará em projetos e trabalhos em países que nem imaginava ir e iniciará outros projetos em áreas que nunca havia pensado. E, assim, rotina é algo que dificilmente fará parte da sua vida.
E o melhor de tudo é que se você precisar de rotina em algum momento, basta se estabilizar em algum canto do planeta por 1 mês, 1 ano ou 10 anos… até enjoar e zarpar de novo. Um nômade digital nāo precisa ser nômade para sempre. Ele pode, inclusive, voltar para casa e passar um tempo por lá, se planejar isso com os sócios, se os tiver.

Agora que contamos o dia seguinte dos pesadelos inicais, vamos elencar algumas vantagens em ser nômade digital.

5) Você nāo precisará investir uma fortuna ou todas as suas economias para inicar um projeto. Se der certo, seu investimento dará cria. Se nāo, o tombo financeiro nāo terá sido tão grande quanto ter aberto uma loja ou uma franquia de lanchonete.

2) Obtendo sucesso, com o tempo, você pode escolher ser o que se chama “semi-nômade. Suponhamos que, após vários anos de viagens ao redor do planeta, descobriu que gosta mesmo é do Brasil e, mais especificamente, daquela pequena cidade à beira-mar no nordeste que você passou 3 meses ano passado. Mas, ao mesmo tempo, você nāo sabe como irá viver sem passar temporadas no bairro boêmio do Marais, em Paris, que você adora de paixão.
Pois bem. Assim como você possui um sócio no Brasil (se tiver) nada impede que faça uma sociedade com um(a) frances(a) em Paris. Assim, você passará, por exemplo, 6 meses no Brasil e 6 meses em Paris. Conheço pelo menos 3 nômades digitais no ramo de design gráfico que vivem em ponte-aéreas assim. Um deles, aliás, por uma razão muito compreensível: se casou com uma canadense, mas não quer mais abrir mão de sua terra natal, a Nova Zelândia. Hoje, ele é cidadão dos 2 países, com 3 filhos canadenses.

3) Você pode trabalhar literalmente onde e quando quiser. Pode ser em um quiosque à beira-mar na Tailândia, em um chalé nos Alpes austríacos, na 5a Avenida em Nova York ou no quintal da sua avó. Seu escritório é o mundo.

4) É mais fácil mudar de ramo de negocio. Se você é um nômade digital trabalhando com projetos de arquitetura (eu conheço uma canadense que é) e se “enche o saco“,  lembre-se: você está no século 21. A maior parte dos cursos universitários hoje são oferecidos online, e você cursa onde estiver. A geração X deve torcer o nariz para tais cursos mas fique sabendo que várias faculdades de universidades como Harvard ou Stanford oferecem formação digital 100% online e têm o mesmo reconhecimento nos EUA e Europa de um curso presencial.
Bem vindo ao século 21 !

5) Você nāo precisa ter compromissos sociais ” obrigatórios”, aqueles do tipo :”que saco! Ele é legalzinho mas é um porre. Temos que ir, se não ele se ofende“. Bem… você terá uma boa desculpa para não ir: fica um pouco distante de ir à casa dele… da Finlândia!

Há muitas outras vantagens e você pode buscar online em profusão.
Por último, já que tanta gente está aderindo a este modo de vida nos 5 continentes… algo de bom deve haver isso, não é?
Se você se animou em trilhar esta carreira, aí vāo alguns bons pontos de partida:

Websites:

Home


http://nomadesdigitais.com
http://academiadenomadesdigitais.com

Theme Overview


http://becomenomad.com
http://www.digitalnomadjobs.com

Home e-Learning


https://www.facebook.com/groups/DigitalNomadsAroundTheWorld/
https://www.facebook.com/nomadlist
https://coursehorse.com/los-angeles

Youtube:
https://www.youtube.com/user/nomadesdigitais
https://www.youtube.com/user/CasalPartiu

Aplicativos:
https://www.rescuetime.com
http://www.xe.com/apps
http://voyagetravelapps.com/trail-wallet

Twitter:
https://twitter.com/nomadlist?lang=en


Alberto Escosteguy

A vida de um Nômade Digital: o lado que ninguém vai te contar

Tenho ouvido freqüentemente uma pergunta quase todos os dias: “como se faz para ser nômade digital? Eu queria tanto!” Depois que explico o processo, quase sempre, a mesma afirmação se segue: “que ‘inveja’! Mas eu não tenho essa coragem”.

Resolvi, então, discorrer um pouco sobre este tema, se me permitem. E o farei em 2 momentos: antes vamos falar do que ninguém fala: o lado ruim. No próximo post, falaremos do lado bom.
Antes de mais nada, vamos analisar o que leva alguém a escolher este caminho. Tudo se resume basicamente a uma breve explicação: busca pela liberdade. Liberdade de criação, liberdade de mobilidade, um desejo muito forte de viver outras culturas e não apenas ser um turista e, o mais importante, uma vocação inegável para viajar.
De fora, tudo é lindo: a pessoa “largou tudo” (nunca é exatamente isso), para ganhar a vida viajando, tirando fotos, filmando e escrevendo sobre lugares exóticos e paradisíacos.
Tudo bem, até existe alguma verdade nisso. Mas como dizem aqui na América do Norte, “no pain, no gain”. Existe igualmente um ônus que parece ser comum a quase todos os “digital nomads”. Os principais, que pude perceber ao logo desta jornada e compartilhando com outros digital nomads, são:

1) Você vai perder contato com quase todos os seus amigos

Você será “julgado” por ter conseguido voltar ao Brasil para o aniversário de casamento do Fulano mas não veio para o nascimento do filho da Beltrana que tanto te convidou. Além do mais, seus amigos ficarão no Brasil, no mesmo lugar geográfico, passando por experiências muito parecidas, normalmente, às que os pais e amigos deles tiveram e nutrindo as mesmas expectativas. Estarão envolvidos em sua cultura e sua comunidade como sempre estiveram. Lidarão com problemas que sempre lidaram. Você não.

Você decidiu sair pelo mundo, às vezes visitando países que nem a língua fala, conhecerá inúmeras culturas, visões de mundo diferentes, sociedades ultra civilizadas, outras nem tanto, algumas homofóbicas, outras poligâmicas, países onde cortar o clítoris das adolecentes é rito de passagem esperado inclusive por muitas delas própias, enfim… a cada novo destino, você não será mais a mesma pessoa. Algo de seu terá ficado no seu último destino e algo dele você levará com você. Tudo isso aliado ao fato de você não poder se ‘desenraizar” como bem explicou Suzan Weil, correndo o perigo de perder seu referencial identitário.

2) Você ficará muitas vezes bastante solitário

Ao “vagar” pelo mundo, irá conhecer todo os tipos de pessoas. Muitas vezes passará Natal, Ano Novo, seu aniversário na estrada, pois estará no meio de um projeto e não poderá simplesmente dizer aos seus sócios no Brasil: “ agora não vou publicar nada porque tenho que ir pra casa da minha māe“. Não dá. Mas o pior é que algumas pessoas que você conhecerá em seu caminho terão “pena” de sua solidão e lhe convidarão para passar essas datas com sus respectivas famílias, o que será pior, pois fará você lembrar das pessoas que ama e ficaram no Brasil. Sobretudo quando você estiver publicando para seu site ou seu blog em algum Starbucks longínquo e começar a tocar o SAMBA DO AVIĀO, como agora.


(Para quem nāo sabe, o Starbucks toca bossa nova em todas as suas lojas do planeta)

3) Sua família vai sentir [muito] a sua falta

Não adianta. Mãe é mãe. Avó é avó, tio é tio e por aí vai. Elas e eles vão querer saber sempre de você e quando ligar vão pedir para você voltar, para você se ‘estabilizar‘, ter uma vida “normal” e, por fim, algumas vão chorar.

Isto nos leva ao próximo tópico que é…

4) Você vai se sentir culpado

Não tem jeito. Após um certo tempo ouvindo ou, pior, vendo sua famíli ou sua amiga de infância, chorarem no Skype, no Facetime, no WhatsApp e no que mais inventarem, você vai se sentir culpado. E, por fim,

5) Tudo é vivido no dia de hoje e intensamente

Ser um Digital Nomad irá transformá-lo para sempre e profundamente, de uma forma que você se deparará com facetas de sua própria personalidade e de si mesmo que talvez ainda não conheça bem. A solidão da viagem e o lidar com culturas totalmente diferentes e com pessoas de todos os tipos possíveis, fará com que, no fim das contas, a aventura mais intensa, mais longa a muitas vezes mais interessante, não será nas praias de areias cor de rosa das Filipinas, nas barreiras de corais vermelhas e azuis da Austrália ou para o norte do planeta para testemunhar os fogos de artifício da Terra, chamados Aurora Boreal.
Nada disso. A melhor e mais intrigante viagem será para dentro de si mesmo, percorrendo vales, desertos e campos muitas vezes incrivelmente lindos, como você nunca havia imaginado que fossem e, outras vezes, enfrentando tempestades que você nem sabia que existiam.
Finalmente, com tudo isso, a idéia de voltar para casa estará constantemente pulsando no fundo da sua mente. Mas, ao mesmo tempo, uma pergunta irá sempre seguir esse pensamento:” mas… onde é “casa”? E aí, você perceberá que sua casa é ali onde você está: no café em Paris à beira do Sena, em uma praia no Caribe de mar azul turquesa ou na cama de um hotel 5 estrelas, porque ninguém é de ferro.
E aí ? Você está pronto para ser um nômade digital?


Alberto Escosteguy

Aprendendo com a estrada

Ao longo de minhas viagens aprendi que podemos aprender muito pelo caminho. Mas há um”segredo”: as ‘aulas’ são sempre sutis, discretas, jamais se impõem, não passam dever de casa nem fazem teste de conhecimentos. A aprovação vem ao longo da vida, da informação que você conseguiu transformar em conhecimento. O mais importante que aprendi é que se quisermos ouvir a estrada devemos aprender a viver o momento presente. Parece clichê mas não é. O viajante só possui o “hoje”. O amigos de hoje permanecerão com ele mas provavelmente não fisicamente.

A cidade de hoje é bem diferente do país de ontem. O planejamento financeiro feito muitas vezes não corresponde aos gastos que aparecem (falaremos especificamente sobre este tema mais adiante). Se você decide tirar 1 mês, 6 meses, 1 ano da sua vida para viajar mas não consegue ficar longe de e-mails, WhatsApp, jornais locais de sua cidade, me desculpe, mas você, na verdade, nem saiu de casa. Não defendo aqui que você suma e “dane-se o povo lá em casa!”.

Minha sugestão seria separar, digamos 1 hora do dia (de preferência no final dele) para mandar e-mails, falar no Skype com mãe, pai, namorada(a) etc., ler jornais (essa parte eu pularia) e pronto.
Assim, podemos viver nossa viagem em toda sua intensidade. Assim, quando encontramos novas pessoas, podemos estar 100% presente, ouvindo e dando total atenção a esta pessoa. Quem sabe ali está um(a) grande professor(a) ou um romance de viagem? (que, aliás, são os mais intensos da sua vida. Também abordaremos este tema mais adiante).
Se você quer ser um viajante por uma semana, um mês, ou 10 anos, pouco importa: pratique a viver o HOJE.

Comece pelos seus pensamentos. E tudo fluirá.


Alberto Escosteguy

“Terra minha Mãe, Céu, meu Pai”

Chegando em Manila, nas Filipinas, o que eu achei que seria o horror dos horrores, já que fui levado para um lugar chamado “ Exclusion Room”, provou-se ser umas experiências mais interessantes de todas as minhas viagens.

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As surpresas começaram ao me deparar com oficiais de imigração, alfândega, funcionários do aeroporto etc. de uma gentileza ímpar. Todos perguntavam se eu estava bem, se precisava de alguma coisa e deixaram claro que eu não estava preso nem nada disso. Apenas, de acordo com as leis filipinas, eu deveria voltar ao meu país de residência permanente, que no caso é o Canadá. Entrei na tal sala com nome de filme de terror e tinha carregador para iphone, água, televisão… nada mal. Havia lá um ugandense que havia pedido asilo e foi recusado, e esperava não se sabe bem o que naquela sala, um camaronense deportado por trabalho ilegal, um chinês que não fala nada além de… chinês, então não sei qual o problema dele. O mais interessante, porém, foi após eu estar umas 4 horas por lá, a chegada de uma família alemã, pai, mãe uma filhinha de 3 anos de idade. Eles chegaram com roupas coloridas, cheios de instrumentos de musica balinesa e incensos. Eu pensei “isso aqui vai ficar bom”.

Assim que vi que eram alemães fui falar com eles (eu falo alemão) e, ao contrario de 99% dos alemães, não lhes causou surpresa nenhuma um latino começar a falar alemão fluentemente com eles fora da Alemanha. O caso deles parecia o meu, em certos aspectos: o pai, ao tirar foto para imigração a fim de entrar no país fez sinal de “legal” com o polegar e deu uma piscadinha, sorrindo. O oficial disse que ali não era circo e ele teria que ficar sério. Segunda tentativa e o alemão faz a mesma coisa. Nova bronca e na terceira tentativa ele ficou sério. Mas botou a língua para fora. Foram imediatamente impedidos de entrar no país e se juntaram a nós.

Eles estavam morando em Bali (onde mais?) e foram para as Filipinas para um workshop com animais que eu não entendi muito bem o que era. Passaram-se algumas horas e a mãe estendeu um tapete daqueles de praticar Yoga no chão, mais incensos, tirou os instrumentos de várias sacolas que carregava e disse em inglês para a sala toda: “isso aqui está muito carregado. Vamos tocar música e cantar!”. No inicio todos se entre olharam mas ela foi distribuindo os instrumentos pela sala e falou para mim em alemão “vê se me ajuda!”.  Eles começaram a tocar uma canção balinesa e em poucos minutos todos estavam cantando e tocando instrumentos. Jamais me esquecerei da música:

ana-nata, ana iê laiê
Terra minha mãe,
Céu meu pai,
Aia atan,
Water and Fire,
I am!
I am!”

O que posso dizer disso tudo é agradecer ao oficial de Sigapura por ter me devolvido a Manila. Ele jamais seria capaz de me dar o que a vida me presenteou nesses 3 dias na “prisão” nas Filipinas. Aliás, mês que vem já estou planejando voltar. Não para a prisão. Para as Filipinas.


Alberto Escosteguy